
A identidade da Quinta da Alameda não se constrói apenas sobre a geografia, mas também sobre uma espessura temporal que reflete as dinâmicas sociais da aristocracia portuguesa e a transição para a cultura contemporânea.
Situada no mais nobre terroir do Dão, a Alameda possui uma história que já interseta três séculos. A sua fundação sob o corrente nome remonta a 1826, ano em que a propriedade foi adquirida pelos antepassados da família Borges da Gama aos Condes de Santar. Este marco cronológico é significativo, pois corresponde ao final turbulento do período absolutista e ao início de uma época de reordenamento da propriedade fundiária fomentada pelo liberalismo.
No regime absolutista, grande parte da terra estava presa a linhagens nobres através de morgadios. Isto inibia a sua venda ou divisão. Iniciado com a Revolução do Porto em 1820, o liberalismo aboliu tais privilégios e permitiu que as terras entrassem no mercado.
A transação que consagrou a Quinta da Alameda estabeleceu de imediato uma linhagem de prestígio. Os Condes de Santar eram a família mais influente da região, detentores de vastas propriedades e responsáveis pela consolidação da vila homónima como polo vitivinícola. Ao adquirir este património da alta nobreza, a família Borges da Gama assumiu não apenas a terra, mas o estatuto simbólico a ela associado.
Como guardiã deste legado aristocrático, a família Borges da Gama manteve a posse da propriedade ao longo de quase dois séculos. Tal período de longeva estabilidade permitiu a preservação das estruturas fundiárias e - decisivamente - das solenes vinhas velhas que hoje constituem um património genético insubstituível da Quinta da Alameda.
O ponto de inflexão na história moderna da Quinta ocorreu com a aquisição da propriedade pela família Abrantes em 2012. Esta passagem de testemunho adveio não só da devoção pela terra, mas também do óbvio potencial da Alameda e da vontade de o desenvolver. O seu propósito foi claro: exaltar esta Quinta histórica como nome de referência na vinicultura do Dão, mas sem abdicar da memória e da essência do lugar. Bem pelo contrário.
Hoje, a Quinta transcende a definição funcional de uma exploração vitivinícola. Na realidade, a Alameda constitui um domínio notável que serve de verdadeiro microcosmo às Terras do Dão. E a sua relevância no panorama vitivinícola reside não apenas na qualidade dos seus vinhos, mas também na forma como o projeto incorpora a transformação da sua própria região. De uma geografia recentemente marcada pelo cooperativismo e arraigado conservadorismo, o Dão tem evoluído para um território de valorização do terroir e de experimentação controlada.
Com a sua clara aposta na inovação científica e tecnológica, na ética e sustentabilidade ambientais e na genuinidade irredutível dos seus vinhos, a Quinta da Alameda tem sido uma das protagonistas mais eloquentes desta profunda transformação rumo a uma enologia regional de excelência - salvaguardando, todavia, toda a sua forte identidade.

Artigo revisto e validado por Patrícia Santos, enóloga da Quinta da Alameda. Formada em Enologia pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2001). Com prática aprofundada sob Anselmo Mendes. Ampla experiência profissional nas regiões vitivinícolas do Dão, Bairrada e Beira Interior, bem como em Arribes (Espanha).