Santar: Uma Nobre Melodia de Vinhos e Histórias

Se Santar fosse uma peça musical, a melodia nasceria da sua arquitetura e o ritmo das suas ondulantes vinhas. E não seria uma música qualquer: pelo contrário, seria uma daquelas obras-primas barrocas onde cada nota vibra com gravitas, a palavra dos Romanos que designava algo de nobre, digno, com sentido de eminência, substância e profundidade.


O Largo do Paço

Esta substância e esta profundidade estão bem patentes no centro nevrálgico da vila, o Largo do Paço. “Substância” porque este era o local onde o poder dos aristocratas locais se manifestava com todas as suas consequências.

"Profundidade” porque, através da fundura dos séculos, as suas arestas pétreas serviram de testemunhas silentes a acontecimentos que moldaram o destino das Terras do Dão. No seu centro encontramos um cruzeiro sóbrio e altivo, como bem apraz às gentes desta vila tão tradicional e justamente orgulhosa.      

Hoje, o Largo do Paço não é apenas um recinto de vivências passadas. Na verdade, é um espaço vivo que se transforma num teatro ao ar livre durante animadas recriações históricas. Nestas ocasiões, o passado deixa de ser um relato distante para se tornar uma celebração das glórias e dramas gravados na memória coletiva.


O Paço dos Cunhas

Ora, o maior símbolo atual destes dramas é o imponente portal de arquitetura maneirista que pontifica sobre o Largo do Paço. Elegante mas severo, este portal dá acesso ao renascido Paço dos Cunhas.

Construído em 1609, a história deste Paço é marcada pela traição de D. Lopo da Cunha, um fidalgo que preferiu jurar lealdade à dinastia Filipina de Espanha em detrimento do rei D. João IV.

Durante as Guerras de Restauração, a sua conspiração contra o rei português acabou por lhe valer o exílio e o confisco do Paço. A propriedade mergulhou depois na ruína, qual carcaça de pedra a lembrar a fragilidade da sempre volúvel fortuna.

Este passado de glória e queda encetou um novo capítulo no século XXI. Hoje, o antigo solar é um prestigiado centro enogastronómico que alia um restaurante de autor a uma das mais emblemáticas vinhas da região, a Vinha do Contador.


A Casa de Santar

A vizinha Casa de Santar serve de contraponto direto a esta narrativa de ruptura histórica: de facto, se o Paço materializa uma interrupção, a Casa materializa a permanência e a continuidade.

É, desde o século XVI, pertença da mesma família. A sua própria arquitetura atesta uma linhagem contínua graças ao palimpsesto de estilos acumulados ao longo das gerações. Aqui encontramos um núcleo arquitetónico inicial, extensões barrocas de setecentos e uma varanda neoclássica do século XIX.

Esculpido num dos lados da principal artéria da vila, no exterior também encontramos o revivalista Chafariz da Carranca. Inspirado em modelos do século XVIII, ostenta o brasão de armas da Casa de Santar e uma expressiva bocarra por onde jorra a água.

A Casa de Santar cresceu e sobrepôs camadas de gosto e de tempo com a harmonia que só uma longa posse pode transmitir. A ela pertence a afamada Vinha dos Amores, a qual se situa numa encosta onde antigamente os casais de namorados da vila se encontravam em segredo. Este era um local onde o romance florescia numa paisagem de distinta beleza.


O Torreão da Alameda

Com ainda maior amplitude e dom atmosférico, esta mesma paisagem pode ser admirada no alto do carismático Torreão da Quinta da Alameda. Na contiguidade da Vinha dos Amores, dele se espraia um dos mais marcantes cenários naturais deste encantador recanto das Beiras: abarcada num horizonte recortado pelos distantes picos das Serras da Estrela e Caramulo, aqui os olhos enchem-se da rica tapeçaria entrelaçada de vinhedos, verdes pinhais e brancas povoações das Terras do Dão.    

Com uma história que intersecta três séculos, o Torreão serviu primordialmente como ponto de supervisão dos trabalhos agrícolas nos campos circundantes. Com essa função exaurida, este marco arquitetónico é hoje um símbolo maior da reverência da Quinta da Alameda pelos valores e tradições da sua região vinícola.


A Lagareta do Barroco

É sabido que tal tradição vinícola deve remeter ao tempo dos Romanos. No entanto, em Santar, a sua prova física mais antiga é a Lagareta do Barroco.

Escondida entre frondosos carvalhos, este singelo monumento arqueológico consiste de uma superfície circular escavada diretamente sobre um dos típicos afloramentos graníticos da região.

O seu funcionamento era simples e engenhoso. A estrutura era composta de uma grande bacia (o calcatorium, onde as uvas eram calcadas) e de um lacus inferior que depois recolhia o mosto escorrente. Com marcas de cruzes nos silhares, a casa de apoio contígua sugere que a vinificação deste mosto era feita no mesmo sítio.

Segundo a memória popular, esta lagareta medieval ainda era utilizada em meados do século XX. A sua existência prova que os antigos perceberam desde cedo a extraordinária qualidade do terroir local.


As Vinhas de Santar

Este terroir de vinhos elegantes e complexos é a chave para compreender a elegância e complexidade do legado patrimonial de Santar. Aqui, as vinhas são as grandes definidoras: das gentes, das tradições, da arquitetura, da paisagem.

E ao contrário de outros locais no Dão - onde os vinhedos se escondem recatados nos pinhais - em Santar, as omnipresentes videiras envolvem com altivez o olhar próximo e distante.

Os nomes destas videiras ocupam a alta nobreza da enologia portuguesa. Secundadas por castas como Jaen, Alfrocheiro e Tinta Roriz, é neste chão que brotam algumas das expressões vínicas mais graciosas e sublimes de Encruzado ou Touriga Nacional.

Daí as vinhas serem o sustento principal da história da vila e a fonte de riqueza que permitiu a construção do seu notável património. A sua presença assídua dentro da própria malha urbana, integradas em hortas, em alpendres e em jardins históricos, é uma característica distintiva que funde o espaço edificado e agrícola de forma rara e harmoniosa.


A Casa das Fidalgas

Harmoniosa é também a junção do barroco e do neoclássico na Casa das Fidalgas. Erguida no século XVII sobre uma torre medieval, esta majestosa edificação parece dever o seu intrigante nome a três irmãs solteiras que nela viveram.

Já no século XX, o seu estatuto ascendeu mais alto após ter sido doada à Casa Real Portuguesa. Hoje, este solar histórico serve como um luxuoso hotel e spa após meticulosa recuperação arquitetónica e paisagística.


A Casa do Soito

Por outro lado, a Casa do Soito é um exemplo vibrante desse desdobramento do barroco que assolou a Europa a partir de França, o rococó. A sua fachada é uma celebração do movimento, com escadarias ornamentadas, exuberância teatral e janelas emolduradas por espessas volutas.

Esta Casa serviu como resposta ao Paço dos Cunhas, numa clara demonstração de emulação e competição entre as famílias nobres da vila. Mais tarde, num volte-face do destino, o proprietário do Soito adquiriu o arruinado Paço e uniu as duas propriedades num só domínio.


A Igreja da Misericórdia de Santar

Antes de se ter arruinado a si mesmo e ao seu Paço, D. Lopo da Cunha teve um gesto de piedade que viria a atenuar as marcas da sua traição lesa-majestade. Esse gesto foi a doação de terrenos para a Igreja da Misericórdia de Santar, a qual viria a ser fundada em 1632. Arquitetonicamente, o edifício é um compêndio de estilos que reflete séculos de intervenções.

De feição maneirista, a igreja sofreu transformações sucessivas que lhe imprimiram a marca do gosto barroco e joanino. A fachada ganhou janelas rasgadas, nichos e frontispício imponente; mais tarde, ergueu-se a varanda alpendrada e a torre sineira coroada por coruchéu bolboso e fogaréus.

O seu interior guarda silhares oitocentistas, retábulos dourados e a memória de sucessivas mãos que o moldaram.


A Igreja Matriz de São Pedro

Bem mais antiga, a Igreja Matriz está implantada num dos núcleos históricos mais relevantes da vila. A sua composição manifesta um forte contraste: se no exterior impera a dura sobriedade do granito, no interior a penumbra é suavemente rasgada pelo brilho contido da talha dourada.

A fundação desta pequena igreja deve ter ocorrido no período românico (século XII), mas não é implausível que seja ainda mais remota.


O Porte Aristocrático de Santar

Embora especulativo, o argumento para esta fundação remota é a própria origem do nome “Santar”. A lenda diz que o nome adveio da ordem dada por D. Afonso II para “assentar” arraiais após ter vencido uma batalha.

Porém, a explicação mais provável reside no nome germânico Sentarius, de raiz visigótica muito longínqua.

Ainda assim, a lenda captura melhor a essência de Santar como terreno privilegiado de usufruto e nobreza. Efetivamente, no passado, os predicados aristocráticos da atual vila valeram-lhe a designação temporária de “Cortes da Beira”: tantos eram os nobres residentes, que boa parte das cortes do rei se encontrava aqui e não na capital portuguesa.

Tal passado de eminência, substância e profundidade histórica é o que se sente e degusta numa visita à vila - no granito dos brasões, nos frutos vínicos das pródigas vinhas ou no porte fidalgo dos torreões e casas senhoriais, como melodia de fundo, a gravitas tudo permeia em Santar.



Artigo revisto e validado por Patrícia Santos, enóloga da Quinta da Alameda. Formada em Enologia pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2001). Com prática aprofundada sob Anselmo Mendes. Ampla experiência profissional nas regiões vitivinícolas do Dão, Bairrada e Beira Interior, bem como em Arribes (Espanha).