
O Torreão da Alameda assume uma singular posição levocárdia no território do Dão. Dele podemos lançar o olhar sobre um anfiteatro modelado por serras e cinzelado por linhas de água.
Anfiteatros naturais deste quilate permitem a criação de microclimas que tornam possível perscrutar áreas inauditas e enaltecem a vocação que devem ter no projetar de uma marca no mundo.
Fruto de uma interação espacial e temporal entre o homem e o ambiente, a paisagem é um sistema complexo que traduz a essência de um local. Este sistema combina aspetos naturais e culturais, que se influenciam simbioticamente ao longo do tempo, e expressam toda a biodiversidade, labor, engenho, inovação e criatividade.
A compreensão da paisagem implica, assim, o conhecimento de fatores como a litologia, o relevo, os solos, a hidrografia, o clima, a flora e a fauna, a estrutura ecológica, o uso do solo e todas as expressões da atividade humana.
A isto corresponde uma coerência nos processos e atividades naturais, históricas e culturais, pelo que a paisagem é considerada o resultado visível da interação entre fatores abióticos, bióticos e humanos, que variam segundo o lugar e o tempo, e que contribuem para o genius loci.
Esta combinação confere a cada paisagem um determinado carácter, que está continuamente em evolução, mas é único para cada lugar. Tal carácter tem um papel preponderante no estabelecimento e promoção da identidade, cujos traços e formas de expressão permitem reconstituir a sua génese e o seu papel funcional.
Nos seus 24 hectares, e assente sobre a biodiversidade de uma fauna e flora naturais, a Quinta da Alameda é um dos raros exemplos onde, fruto de uma harmoniosa combinação de fatores naturais e condições humanas, se está a estabelecer uma paisagem e um património com base em recursos genéticos nas diversas áreas de produção agrícola e florestal.
Com os cedros a assumirem uma silhueta florestal que identifica a propriedade e uma mata autóctone constituída, privilegiadamente, por carvalhos e medronheiros numa posição nevrálgica com enorme relevância ecológica, na Alameda impera uma diversidade de cenários paisagísticos.
Atribuída pelo porte e delineamento dos cedros, a sua prevalência de cores verdes contrasta com as manchas agrícolas em mosaico onde se cultivam as várias castas de vinha, as oliveiras e as árvores de fruto, bem como os mimos das hortas para preservação e incentivo do uso agrícola e das práticas de cariz biológico que trazem à memória as tradições e os sabores ancestrais.
As zonas mais baixas são bordejadas em passe-partout por galerias compostas por amieiros, freixos, salgueiros e sabugueiros. Estas espécies, pela leveza e resistência das suas madeiras, podem assumir-se como matéria-prima para o ofício de artesãos empiricamente sabedores ou para empresas altamente competentes que cultivam a criatividade. Os sabugueiros, cujas flores ornam de brancura e aroma as linhas de água, abrem perspetivas interessantes para a utilização na gastronomia.
As manchas de mata que se insinuam entre as áreas agrícolas contribuem para a diversidade do mosaico que caracteriza esta paisagem, definindo zonas tampão, com um papel ecologicamente funcional de extrema importância no ordenamento e controlo de pragas e doenças fitossanitárias.
Assim, os usos estão em geral bem-adaptados aos recursos presentes e a sua equilibrada diversidade indica uma efetiva sustentabilidade e capacidade multifuncional da paisagem.
A Quinta da Alameda pretende assumir-se como o exemplo reflexo de um território-região onde figuram como expoentes a viticultura, a olivicultura, a fruticultura, as ervas aromáticas e a horticultura, em larga medida em modo de produção biológica.
Na área florestal pontificam o castanho e a castanha, a bolota e o carvalho, as mais variadas espécies de cogumelos silvestres, assim como o mel e outros recursos. Possui ainda recursos que irão surgir completamente de novo na região, como o cardo (muito por força das alterações climáticas), mas também pela capacidade de inovação e criatividade. Noutros recursos, ainda, que iremos recuperar da galeria doirada do reservatório genético destas paisagens, estão o mostajo e as pútegas.
Pela sua localização estratégica em Santar, a Quinta da Alameda pretende assumir-se como uma “Quinta Jardim” com um conjunto de espaços que, para além da função estética, desempenharão um papel inestimável na preservação e valorização ambiental, ecológica e cultural do Dão. Aí, podemo-nos inebriar pelo perfume das tílias que se espraia por entre a silhueta dos ramos e a sombra densa e simétrica das copas, que nos faz evocar mestres literários como Aquilino Ribeiro.
A horta-jardim que se pretende criar deve assumir-se como o melhor testemunho da qualidade e mestria dos seus criadores. Há que combinar a disposição das espécies num mosaico de cores e matizes, que apelem à harmonia estética e funcional de todos os elementos e que promovam o equilíbrio e sustentabilidade numa azulejaria viva, de desenho original, pincelada por uma flora e preservada por uma fauna auxiliar.
A valorização dos recursos agrícolas autóctones e das práticas agrícolas ancestrais, especialmente no universo das hortícolas, é um património que deverá ser preservado para memória futura. Esta identidade será a base de uma agricultura de prazeres familiares baseada na ativação dos neurónios relacionados com o prazer dos sabores, das fragrâncias, da convivialidade e dos saberes de todos aqueles que tiverem o privilégio de poder usufruir dos seus recursos.

Artigo redigido por Paulo Barracosa, docente na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viseu. Formado em Biologia pela Universidade de Coimbra, fez mestrado em Biologia Celular e Molecular e doutoramento em Biociências. Investiga a valorização de recursos genéticos endógenos, com ênfase no cardo e alfarrobeira. Os seus estudos sobre o cardo têm grande aplicabilidade na produção de queijos, de materiais e de compostos bioativos. Autor de uma multiplicidade de estudos científicos, a sua investigação abrange botânica, genética, bioquímica, biotecnologia e biologia molecular.