
A identidade da Quinta da Alameda não assoma apenas da sua vinha, dos seus vinhos ou do seu percurso histórico imaterial. Na verdade, a sua identidade também está cristalizada num símbolo maior e perfeitamente tangível: o Torreão da Alameda.
A existência desta estrutura antiga não é fruto de uma mera veleidade estética, mas sim de um imperativo de afirmação social e territorial.
Com efeito, para os primeiros senhores da Alameda, a posse de uma torre altaneira pode ter constituído um sinal de assimilação numa paisagem aristocrática dominada por solares brasonados, fachadas imponentes e edifícios habitados pelo poder.
Ao converter a sobriedade do granito num marco territorial, o Torreão consubstanciou assim uma resposta pétrea à invulgar densidade histórica que o cercava a partir de Santar.
Todavia, ao contrário dos mirantes românticos tão em voga no século XIX, o cariz sobranceiro do Torreão também escondia uma alma dura, utilitária e pragmática: à época da fundação da Alameda, num Portugal onde o Romantismo acabara de chegar pelas mãos de Almeida Garrett, os trabalhos rurais nada tinham de românticos ou idílicos.
Ao invés, estes trabalhos eram continuamente sujeitos ao olhar aquilino de feitores que exerciam tutela férrea sobre o suor e o ritmo das massas humanas que labutavam a terra.
Ora, a partir do Torreão, o feitor da Quinta beneficiava de visão desimpedida sobre a vasteza da propriedade. Era daí que este vigiava os trabalhos no campo, identificava as necessidades de rega e guardava a vinha contra furtos de uvas nas semanas que antecediam as vindimas.
A simples possibilidade de uma observação constante (o denominado efeito ‘panóptico’) servia para manter a ordem e a produtividade no campo. O Torreão materializava, portanto, o poder sobre a terra e sobre o homem.
De certo modo, estes atributos não eram muito distintos das assumidos pelas antigas torres medievais em tempo de paz. Tal como estas, o Torreão apresenta uma planta quadrangular onde a espessa solidez da pedra é rasgada por pequenas sentinelas verticais que garantem visibilidade para todos os lados.
Com a evolução social e tecnológica, o Torreão viu exauridas as suas funções práticas de vigilância. No lugar do feitor severo, o visitante pode hoje usufruir desta estrutura para admirar o ondulado do panorama vinhateiro ou a tapeçaria entre as vinhas e os bosques.
Mas a sua simbologia permanece quase inalterada: além de saudar o enófilo que nele identifica a frescura e mineralidade de um terroir único, o Torreão é agora o símbolo mais visível e concreto da reverência da Alameda pelos valores e tradições das Terras do Dão.