Bosques e Vinhedos, Entrelaçados: A Infraestrutura Ecológica da Alameda


Um ecossistema é uma tapeçaria entretecida com os incontáveis fios da vida, sejam estes árvores, humanos, aves, insetos, fungos, bactérias ou quaisquer outros: numa paisagem como o Dão, se puxarmos um só destes fios num prado ou pinhal, toda a trama distante de vinhas e aldeias irá estremecer.

Assim sendo, tudo o que fizermos à tapeçaria, fazemos a nós mesmos. E tudo está interligado por elos invisíveis que podem unir uma raposa a um salgueiro, ou uma gota de chuva a um grão de terra. 

É deste entendimento de íntima interconexão que nascem as nossas convicções e cuidados com a infraestrutura ecológica da Quinta da Alameda: de facto, não nos seria possível produzir azeite ou vinho de qualidade exemplar sem o contributo do nosso bosque, dos pássaros, dos polinizadores, das plantas nectaríferas ou das herbáceas espontâneas que bordejam as culturas. 

É sabido, por exemplo, que as vinhas bordejadas por vegetação diversa sofrem muito menos com pragas, doenças ou infestantes - e aqui, a palavra ‘diversa’ é a que melhor se adequa também à paisagem da Alameda, uma propriedade recoberta num mosaico agroflorestal variado e verdadeiramente funcional. 

Neste singelo pedaço beirão coabitam vinhas das mais sortidas castas, maciços de cedros centenários, mimos de hortas, olivais pródigos, prados floridos, espelhos de água, húmidos lameiros e um bosque que agrega coníferas e folhosas.


O Bosque Encantado da Alameda

E é precisamente neste bosque que encontramos uma das primeiras singularidades ecológicas da Quinta: a densidade verde do nosso bosque está preenchida, de forma rara e assaz privilegiada, por abundantes medronheiros em diferentes fases de desenvolvimento.

Além de constituírem um indicador de saúde e resiliência ambiental, os medronheiros são uma espécie ‘pirófita passiva’. Isto significa que, ao contrário dos pinheiros, apresentam uma capacidade extraordinária de regeneração após um incêndio florestal.

Mesmo que a sua parte aérea seja completamente queimada, as raízes sobrevivem e o espécime afetado volta a brotar com fulgor. Além disso, os medronheiros atuam como uma barreira eficaz perante a progressão de fogos rasteiros.


Mas as suas qualidades não se ficam por aqui, dado que compõem também um manancial alimentar durante as agruras da época fria. Isto acontece devido ao facto de o ciclo biológico do medronheiro ser inverso ao da maioria das plantas no hemisfério norte. 

Desde logo, é uma das poucas plantas que oferece simultaneamente flores e frutos maduros durante o outono e inverno. Daí que forneça precioso alimento tanto aos pequenos polinizadores, como às aves e aos mamíferos. 

Por via direta ou indireta, numa altura em que o alimento escasseia na paisagem, o medronheiro sustenta desde as abelhas aos maiores mamíferos locais, como a gineta, o texugo ou o javali.

A sua convivência com carvalhos e pinheiros também forma uma estrutura mista que é muito mais fecunda que as comuns monoculturas de eucaliptos. 


E sabia que a presença de tanto medronheiro indica que a floresta está num estado pleno de sucessão ecológica, com aproximação ao que seria o coberto original do Dão antes da intervenção humana intensiva?

Mais ainda, as folhas decompostas do medronheiro mantêm um solo de textura e perfil nutricional altamente favorável às herbáceas nativas, às espécies do subsolo e aos inestimáveis carvalhos.

E estes são de facto ‘inestimáveis’, dado que um só majestoso carvalho encerra em si mesmo um vibrante ecossistema. A presença de carvalhos autóctones - como o negral ou o alvarinho - numa região dominada por pinheiros e eucaliptos é, por isso, um potente trunfo ecológico. 

Se estas monoculturas servem apenas como ‘desertos verdes’, os nossos carvalhos funcionam como verdadeiras ilhas de vida e prodigalidade.


Deveras, um único carvalho pode albergar centenas de espécies de insetos, fungos e líquenes. Entre estes insetos pode estar a famosa e quase extinta vaca-loura, o maior e mais distintivo coleóptero da Europa. 

Além disso, as suas copas frondosas oferecem excelentes locais de nidificação para aves que não se fixam em monoculturas.

Por outro lado, as bolotas dos carvalhos são um alimento calórico e fundamental à sobrevivência dessas aves e mamíferos no período invernal. 

Mais ainda, ao moldarem o ciclo da água e a fertilidade da terra, os carvalhos também desempenham um papel de charneira nos fatores 'abióticos' (isto é, ‘não vivos’) do nosso ecossistema: para lá de servirem como amortecedores em caso de tempestade, as suas largas folhas e ampla estrutura radicular permitem combater a energia cinética dos fortes aguaceiros e assegurar uma melhor infiltração das chuvas no solo.


Já as monoculturas de crescimento rápido apenas tendem a consumir grandes quantidades de água subterrânea. A folha caduca dos carvalhos também aduba e regenera a terra, a qual se faz mais fértil, mais capaz de reter humidade e mais apta a contrariar os eventos erosivos que tanto afetam as áreas agrícolas. 

Por fim, tal como os medronheiros, os carvalhos nativos são um aliado estratégico na segurança florestal. Ao contrário dos pinheiros (ricos em resinas) e dos eucaliptos (ricos em óleos voláteis), o carvalho arde muito mais difícil e lentamente. 

A nossa mancha florestal configura, portanto, um ativo belo - mas tenaz - que inibe a propagação de incêndios e que mantém o microclima local mais puro, mais fresco e mais húmido. 

Ora, este é um conjunto de atributos que se mostrará absolutamente essencial face às alterações climáticas e aos verões cada vez mais quentes no espaço do Dão

Em suma, para a Alameda, os medronheiros e carvalhos não cumprem apenas funções estéticas ou de produção silvícola; pelo contrário, estas espécies arbóreas ou arbustivas garantem que a Quinta se irá manter pulsátil muito para além da escala de uma vida humana - e também que a floresta agirá como uma defesa natural perante as agressões do exterior.

A Rede Natural de Segurança e Nutrição da Alameda

Ora, não é possível falar de ‘defesa natural’ sem referir as inúmeras espécies de meritórios fungos que habitam a Quinta. Ao contrário do que possa parecer, todos os fungos são muito mais aparentados aos animais do que às plantas (por exemplo, as suas células são revestidas por quitina, tal como o exoesqueleto dos insetos).

Os fungos também são dotados de uma forma especial de inteligência biológica, dado que podem entender formas, armazenar memórias, tomar decisões e resolver problemas.

Não admira, pois, que um organismo semelhante aos fungos (o bolor limoso) tenha sido utilizado para confirmar a mais eficaz estruturação do sistema ferroviário de Tóquio, no Japão.

Mas voltemos à Alameda, onde um dos macrofungos mais curiosos tem um nome científico que pode ser traduzido como “cogumelo amigo dos carvalhos” - níveo, minúsculo e muito elegante, este cogumelo (Gymnopus quercophilus) exige especificamente estas árvores para assumir a sua função de devolver nutrientes ao solo por decomposição da matéria orgânica.


Felizmente, neste contexto, a Alameda também possui cogumelos muito mais promíscuos e cosmopolitas: por exemplo, os nossos cogumelos ‘enganadores’ (Laccaria laccata) são conhecidos por estabelecerem conexões multiespécie através dos seus filamentos fúngicos subterrâneos, as hifas. 

É de crer que estes fungos estejam a conectar entre si as raízes dos nossos carvalhos, com as raízes dos nossos pinheiros e até com as raízes dos nossos imponentes cedros-do-buçaco.

Através destas hifas fúngicas, as árvores mais velhas e estabelecidas podem estimular rebentos mais jovens ou transferir nutrientes para espécies diferentes em momentos de carência ambiental.

Por outro lado, os diversos fungos micorrízicos da Quinta funcionam como ramos de um sistema imunitário alargado: se um carvalho detectar uma ameaça no seu perímetro, os seus sinais químicos viajam pela rede fúngica e permitem que a vinha ou o olival preparem defesas antes do ataque chegar.


Ao receberem esses sinais, as plantas vizinhas irão combater mais eficazmente pragas, doenças ou stress hídrico (antes mesmo de serem atacadas), usualmente através da produção de enzimas específicas ou através da regulação interna do seu consumo de água. 

De facto, longe de seres passivos, é hoje reconhecido que as árvores e outras plantas são entidades ativas que conversam entre si através desta rede.

Esta conversação invisível e subterrânea forma um mecanismo fundamental para a resiliência das florestas e culturas.

Tal descoberta revolucionou o modo como entendemos o mundo das plantas, já que estas podem funcionar como uma comunidade cooperativa e inteligente ou, ao invés, como indivíduos desconectados e em competição desenfreada: tudo depende das espécies presentes no ecossistema. 

Daí ser muito mais preferível, harmónico e produtivo que esse ecossistema esteja povoado por espécies nativas que ‘falem a mesma língua’ (como os carvalhos e medronheiros, que sabem cooperar entre si) do que por espécies exóticas que ‘falem línguas diferentes’ (como as acácias e os eucaliptos).


Embora as videiras e as oliveiras utilizem um tipo diferente de simbiose com os fungos (por micorrizas arbusculares, as quais não produzem cogumelos visíveis), a saúde e amplitude deste sistema estão completamente integradas. 

Se pudéssemos visualizar o subsolo microscópico da Alameda, veríamos uma vasta, densa e latejante rede de micélios fúngicos a ligar quase todas as plantas entre si.

Portanto, como se percebe, a nossa multiplicidade de fungos (apenas possível graças à biodiversidade de plantas hospedeiras nativas) contribui não só para alimentar as culturas agrícolas, mas também para as proteger perante cenários desfavoráveis.

Contudo, na alimentação das culturas, as relações benéficas não se limitam à contribuição dos fungos e afins. A nossa abundância de plantas leguminosas espontâneas - como os trevos, as giestas e os tremoços - aduba naturalmente o solo através da sua simbiose com bactérias (rizóbios) que convertem o azoto atmosférico em formas assimiláveis de nitratos e amoníaco. 

Isto reduz a necessidade de adubos químicos e aumenta a produtividade das terras da Quinta. Não queremos perturbar estas dinâmicas sensíveis, pelo que a manutenção do enrelvamento natural com leguminosas (bem como a reduzida mobilização do solo) é prática basilar na Alameda.


Felizmente, estas leguminosas retiram o azoto de uma atmosfera largamente impoluta, tal como atestado pelas três espécies de líquenes identificadas na Quinta: visto que acumulam substâncias poluidoras, a sua presença saudável na Alameda é uma garantia de que o ambiente aéreo está limpo e de que o vinho e o azeite não contêm contaminantes voláteis.

Servem, portanto, como indicadores muito precisos da saúde ambiental (por exemplo, o líquen ondulado mostrado abaixo é muito usado na monitorização da qualidade do ar em contextos científicos). 

Quais quimeras, estes líquenes são organismos verdadeiramente especiais e fascinantes, já que formam um ser vivo coeso feito de duas entidades biológicas totalmente distintas: um fungo (micobionte) e um parceiro fotossintético (alga verde ou cianobactéria).


Flores e Polinizadores: a Coreografia de Vida na Alameda

Quando o tempo aquece, a Alameda começa a ser sobrevoada por indicadores de saúde ambiental ainda mais belos e sensíveis que os líquenes: as ameaçadas borboletas diurnas.

Destas, existem quatro espécies que merecem menção particular.

A primeira delas é a bela-dama, uma maratonista transcontinental e a borboleta mais viajada do mundo. Com as suas asas contrastantes em negro e laranja, a bela-dama realiza migrações épicas que começam na África Tropical e apenas terminam no Círculo Polar Ártico.

Pelo caminho, atravessam o Mar Mediterrâneo e a imensidão quente do Deserto do Saara (uma superfície maior que os Estados Unidos). A mais longa entre os insetos - e qual gigantesca corrida de estafetas - esta migração é realizada através de várias gerações sucessivas ao longo do ano.

Encontrar a bela-dama na Alameda significa que a Quinta é um porto seguro numa rota migratória com muitos milhares de quilómetros.


A segunda é a borboleta-tartaruga-grande, uma autêntica sentinela das florestas folhosas. Muito mais frágil e exigente que as comuns borboletas de jardim, está intimamente associada às clareiras de bosques maduros e bem preservados. Não se adapta, porém, a monoculturas de pinheiros ou eucaliptos.

A sua presença é um selo de qualidade ecológica, bem como uma indicação que as árvores autóctones da Quinta oferecem o suporte necessário para espécies mais raras, frágeis e incomuns.


A terceira é a borboleta-azul-tardia. Tal como muitos membros da sua família (os Licenídeos), esta pequena mas iridescente borboleta pratica uma forma de diplomacia fascinante: a mirmecofilia, na qual as suas lagartas ‘subornam’ as formigas com secreções açucaradas em troca de proteção contra predadores.

Tal colaboração estratégica depende de um solo saudável e não perturbado, onde formigas e borboletas possam coexistir em harmonia.


A quarta é a borboleta-prateada, a joia dos prados. É uma espécie heliófila (amante do sol) que depende diretamente da manutenção do enrelvamento natural presente na Alameda.

O problema de viver sob irradiação solar intensa prende-se com a manutenção da sua temperatura interna - assim, para não morrer de calor, esta borboleta apresenta manchas espelhadas de aparência metálica que funcionam como potentes refletores térmicos.

Além de ajudarem na sua termorregulação, estas áreas prateadas fazem-na brilhar como um diamante entre flores silvestres. 


Estas flores silvestres compõem uma multidão botânica que inclui os belos trompetes da campainha-amarela (uma fonte precoce de néctar para os polinizadores no início da primavera) e os luxuriantes tapetes da soagem (uma das favoritas da abelha-europeia, cuja floração generosa contribui sobremaneira para que a Quinta tenha uma população de polinizadores ativa e robusta).


Notáveis são também as majestosas dedaleiras, com as suas espigas de flores purpúreas em forma de dedal. Uma das plantas mais fotogénicas da Alameda, esta é uma espécie fundamental para os nossos polinizadores de maior porte: o abelhão-terrestre e o abelhão-cardador.

Os únicos com força suficiente para entrar nestas flores, tais abelhões não se incomodam minimamente com o facto de toda a dedaleira exibir toxicidade extrema para outros seres como os humanos, os cães ou os cavalos.

A dedaleira é a fonte original da digoxina e da digitoxina, compostos glicosídeos utilizados na elaboração de fármacos para tratamento das arritmias e da insuficiência cardíaca congestiva.


Já o rosmaninho-maior é facilmente reconhecível pelo seu aroma intenso e ‘orelhas’ roxas no topo da inflorescência. Esta planta é um autêntico posto de abastecimento para as borboletas e abelhas melíferas da Quinta.

O seu perfume contribui para a identidade sensorial da paisagem da Alameda e os seus óleos essenciais ajudam a afastar insetos herbívoros indesejados nas culturas vizinhas.

A acompanhar os rosmaninhos temos o jacinto-das-searas, uma flor de geometria invulgar que se assemelha a uma peça de arte abstrata.

A sua ocorrência é um sinal da baixa mobilização do solo praticada na Alameda, a qual permite a estas plantas bolbosas a consecução do seu ciclo anual sem interrupções fatais.

A complementar a palete cromática, temos depois a inflorescência vermelha viva e profunda dos trevos-encarnados.

Esta herbácea traz enormes benefícios à Quinta, pois é um ‘adubo verde’ que fixa nitrogénio no solo e serve de íman visual para a borboleta-prateada e outros lepidópteros escassos.


Estas e muitas outras espécies floridas sustentam uma saudável população de abelhas, abelhões, borboletas e coleópteros que asseguram a renovação da vida através da polinização da flora silvestre e das nossas culturas.

Na verdade, graças a este pacto forjado em coevolução ao longo de milhões de anos, estas plantas não existiriam sem os polinizadores e os polinizadores não existiriam sem as plantas: direta ou indiretamente, quase todos os alimentos da Humanidade têm como base vital a relação íntima entre as flores e estes pequenos insetos alados.

Aves e Insetos Predadores: Os Senhores dos Céus da Alameda

Igualmente relevantes mas muito maiores, temos depois os seres alados mais meteóricos, canoros e visíveis da Alameda: as aves. Como expectável, também aqui existe um pacto de assistência mútua onde pássaros e plantas são os protagonistas de uma dança de proteção e sobrevivência.

O nosso ecossistema biodiverso funciona como uma generosa despensa onde cada espécie vegetal desempenha um papel na manutenção da força aérea da Quinta.

A base deste equilíbrio reside nas oliveiras, as quais representam quase metade das árvores catalogadas. Para aves como o melro ou o tordo, este olival proeminente é o garante de sustento durante os meses em que outras fontes escasseiam.

A estas, juntam-se também Rosáceas (como as cerejeiras, pereiras e silvas) que lhes oferecem um banquete de bagas silvestres e frutos adocicados.


Nos prados e entre as linhas da vinha, o enrelvamento natural forma um tapete vivente onde as Fabáceas (leguminosas) e as Asteráceas (como os malmequeres) preparam um repasto de sementes para os pássaros granívoros. 

É aqui que encontramos a maior representatividade das aves da Quinta: a família dos Fringilídeos, a qual compõe mais de 20% das espécies observadas na Alameda. Atraídos pela abundância de sementes nestes prados floridos, o pintassilgo, o pintarroxo, o verdilhão e o chamariz são presenças constantes ao longo do ano.


Com as suas bolotas, os nossos carvalhos dão pouco alimento direto às aves mais pequenas. No entanto, ao abrigarem uma próspera população de insetos, estas árvores são um alicerce na alimentação das aves florestais que raramente se aventuram numa vinha, como o gaio, a cotovia-arbórea, o pombo-torcaz ou o pica-pau-malhado-grande.


Contudo, as aves também prestam um imensurável serviço de segurança biológica. Pássaros como o pisco-de-peito-ruivo, o cartaxo e as diversas e coloridas espécies de chapins patrulham as culturas para eliminar insectos herbívoros que, de outro modo, se tornariam pragas em potencial. Esta diversidade de aves é determinante para a saúde da vinha.


A Quinta retribui estes serviços não só com alimento, mas também com abrigo dedicado. Para além das cavidades naturais oferecidas pelos carvalhos e pinheiros-bravos, a Alameda disponibiliza ninhos manufaturados para repouso e reprodução. 

Assim, cada chilreio ouvido entre cedros e videiras não é apenas música para os ouvidos; é igualmente a expressão sonora de uma infraestrutura ecológica funcional onde a multiplicidade de plantas sustenta a vida que dará origem ao vinho, ao mel e ao azeite da Alameda.

Mas é claro que a força aérea da Quinta não se limita às aves. Há ainda a considerar ávidos predadores de insetos prejudiciais, como as libelinhas, as aranhas, os louva-a-deus e as joaninhas, particularmente a joaninha-de-sete-pintas: presentes graças ao enrelvamento natural da Quinta, estas são pequenas mas vorazes predadoras dos pulgões que poderiam sugar a seiva das nossas videiras.

Tais joaninhas são acompanhadas por uma das poucas espécies de libelinhas que preferem descansar junto ao solo, a ortretum-azul (Orthetrum brunneum). Qual peça de porcelana azulada a brilhar sob o sol, esta libelinha gosta de repousar sobre pedras quentes ou manchas de terra nua junto a cursos de água pouco profundos.

Uma única destas libélulas pode consumir centenas de moscas e mosquitos num só dia.


Ao contrário da libelinha-de-veias-vermelhas, a ortretum-azul é muito exigente em termos ambientais. A sua ocorrência na Alameda indica águas limpas, bem expostas e pouco profundas — sinais de um ecossistema aquático com boa exposição solar e sem poluição química pesada.

Os Serviços de Ecossistemas da Quinta da Alameda

Na Alameda, este ecossistema aquático é alimentado não apenas diretamente pelas chuvas, mas também pelas fontes naturais que brotam das encostas.

Pródiga em água, a Quinta sustenta assim uma pluralidade de organismos terrestres e aquáticos que inclui as rãs, os sapos e as salamandras.

A partir das nascentes, a água verte-se pelo declive da propriedade até se deter mais calmamente nos lameiros do fundo do vale. Enquanto isso, vai alimentando com vida o solo por onde flui límpida e refrescante.


Importantíssimos na guarda da água, tais lameiros são uma espécie de memória líquida da Alameda. Mais ainda, ao funcionarem como o coração hídrico da Quinta, estes verdadeiros prados húmidos atuam como uma esponja enorme e benevolente: nos meses de chuva, acolhem os picos de precipitação, filtram sedimentos e impedem que a energia dos aguaceiros leve consigo as camadas mais férteis do solo; no seco estio, libertam a água com parcimónia e preservam a humidade para benefício dos habitats vizinhos.

Os nossos lameiros são, portanto, filtros naturais, cofres de fertilidade e sumidouros de carbono.

Ao juntar todos estes habitats e habitantes, das vinhas aos lameiros e dos fungos aos pintassilgos, a Quinta da Alameda acaba por funcionar como um organismo unificado onde cada uma das centenas de espécies catalogadas desempenha um papel determinante na saúde agrícola e florestal.

Vale a pena preservar este ecossistema vibrante onde a natureza faz sozinha um trabalho de fertilização, produção e proteção. De outra forma, estes trabalhos teriam custos financeiros e ambientais incomportáveis: afinal, dinheiro nenhum seria suficiente para pagar a água límpida, o ar puro ou o solo produtivo gerado nesta Quinta salutar.


A nossa biodiversidade não é assim um mero adereço da paisagem, mas antes uma rede diáfana que tece a excelência da terra. O que a ciência designa por ‘serviços de ecossistema’ é, na verdade, um conjunto de pactos ancestrais e diálogos biológicos que sustentam toda a infraestrutura da propriedade.

A qualidade suprema do vinho e do azeite da Quinta da Alameda é a destilação direta destes serviços. Graças à sua biodiversidade, a videira e a oliveira não recebem apenas nutrientes genéricos, mas antes a identidade específica do seu pedaço de terra, do seu terroir.

Isto traduz-se em produtos com qualidades que nenhuma intervenção artificial consegue replicar.

E é por isso que tencionamos não só preservar a beleza e riqueza da tapeçaria da Alameda, mas também reforçá-la com ainda mais fios de vida. Assim sendo, quem visitar a Alameda não provará apenas vinho e azeite - provará uma paisagem viva.


Artigo revisto e validado por Patrícia Santos, enóloga da Quinta da Alameda. Formada em Enologia pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2001). Com prática aprofundada sob Anselmo Mendes. Ampla experiência profissional nas regiões vitivinícolas do Dão, Bairrada e Beira Interior, bem como em Arribes (Espanha).